Contos e Prosas



Cadeira de Palha

                                                                 

         As outras meninas desfilavam caras, bocas e maiôs coloridos. Eu não! Desfilava cadeira de palha. Isto mesmo. Cadeira de palha. De balanço, daquelas bem grandonas, com encosto confortável, apoio para os braços e toda trançadinha com palha. Este era o preço que pagava para passar as férias de verão na casa de minha avó, na praia de Sepetiba.
         Diariamente, logo após o almoço, ela fazia-me colocar o monstruoso assento na cabeça e desfilar da nossa casa até a praia, onde ela, bem acomodada, fazia a cesta e eu tentava recuperar-me do esforço e da vergonha de carregar o gigantesco objeto. Mas logo recuperava-me e começava a aproveitar dos prazeres do sol e do mar.
         Até que hoje acho engraçado, embora, à época, não achasse graça em fazer graça para os que caçoavam de mim. Achava-me ridícula no “alto” dos meus doze anos, seios despontando, pelos cobrindo o corpo, a alma desnudando emoções, tendo que desfilar desgraciosamente, entre amiguinhas e paqueras, vestindo aquela coisa horrorosa chamada cadeira de balanço. Vestindo sim, pois ela era enorme e depois de colocada na cabeça só me sobrava do joelho para baixo, porque para cima só aparecia palhinha trançada. E haja palhinha para sustentar a abundância dos cento e vinte quilos de  minha avó!
         No trajeto casa praia ou praia casa deixava de ser eu e passava a ser cadeira de pernas, ouvindo piadinhas e gracejos, até chegar à areia, despir a cadeira e transformar-me na adolescente sonhadora, ávida para pegar sol, desvendar o amor no suave balanço do mar e viver! Aí, sentia-me a própria “Garota de Ipanema”, até, novamente, vestir a fantasia, assumindo a identidade de “cadeira de pernas” ou “garota de palha”.
        



MENTIRA DE CRIANÇA


Como criança mente! Lembrei agora de um fato ocorrido na minha infância. Tinha uns seis ou sete anos e minha mãe, uma jovem senhora, bonita, terna e muito zelosa, levou-me com ela para uma consulta com renomado médico de Santa Cruz, Dr. Lourenço. Não estávamos doentes, pelo menos eu não me sentia assim. Minha mãe não sei até hoje porque foi ao médico.
            Ao chegarmos fomos muito bem recebidas pelo homem de jaleco branco. Primeiro examinou minha mãe. Munido de um aparelho, que hoje sei ser um estetoscópio, auscultou aqui, ali; colocou uma espátula em sua língua e mandou dizer “AAAAAAA”; colocou o  ouvido nas costas em suas costas e mandou tossir. Finalmente vieram as perguntas:
_Quantas vezes a senhora defeca ao dia?
_Duas, respondeu minha mãe.
Defeca??? Que será isso? Pensei intrigada.
_E quantas vezes a senhora urina ao dia?
Urina??? Mais uma palavra que desconhecia.
_Três a cinco vezes, falou ela.
_Qual o último dia de sua menstruação?
Menstruação??? Nossa! Que será isso?
_Dia 15 desse mês.
_ Muito bem, Dona Léa! Vou passar uns exames de rotina. Logo que estiverem prontos a senhora volta aqui. E olhando para mim falou:
_Agora vamos examinar essa garotinha. E fez os mesmos procedimentos aplicados em minha mãe. Abri a boca, falei “AAAAAAAA “, tossi e chegou a hora da inquisição.
_Quantas vezes você defeca ao dia?
Prontamente, lembrando da resposta de minha mãe, falei:
_Duas.
_E quantas vezes você urina ao dia?
Novamente dei a resposta que minha mãe havia dado:
_Três a cinco.
O homem do jaleco branco olhou para mim e falou:
_Tudo bem menininha. Acabou a consulta. Vou passar uns exames de rotina para você.
Intrigada, perguntei:
_Doutor o senhor esqueceu de perguntar quando foi o último dia de minha menstruação!






         Gosto de Infância

                                                                 
         Há dias atrás me surpreendi, melancolicamente, sentindo vontade de beber o chocolate que saboreava no passado, quando criança. Rapidamente, para satisfazer o corpo e a alma, saí, comprei leite e chocolate em pó de uma marca qualquer. Fui para a cozinha, realizei todo um ritual. Caprichei na alquimia. Afoita, sorvi a bebida. Decepcionada cuspi o líquido. Não era aquele o sabor que esperava sentir.
         Vesti-me apressada. Saí! Comprei nova marca de chocolate. O gosto de infância perseguindo-me passo a passo. Novamente repeti o ritual e a alquimia. Desta feita tinha certeza que iria satisfazer o meu paladar e a minha emoção. Comecei a beber vagarosamente o líquido fumegante, tentando saborear o gosto “pré-sentido”. Triste ilusão! O líquido era horrível!
         Não me deixei abater. Decidida, mais uma vez fui às compras. Escolhi, cuidadosamente, outra marca de chocolate e outro tipo de leite. Voltei e confiante preparei a poção mágica. Sentei-me no chão, com a caneca de ágata (relíquia dos tempos de criança) nas mãos e comecei a beber. Conforme a mistura, de aroma e sabor não familiares, ia descendo fui tomando consciência de que tudo havia mudado. O pó do chocolate não era mais genuíno e o leite continha uma porcentagem exagerada de água. A própria vida estava diferente e as minhas emoções também.
         Enfim, constatei que, no meu presente, o chocolate com gosto de infância faz parte do passado e só me é possível resgatá-lo nos doces momentos de... saudades!

2 comentários:

  1. Muito interessante o conto, só falta a autoria , eu sei que é da Nancilia .

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  2. MILTON JORGE OBRIGADA PELO ELOGIO. MEU BLOG AINDA ESTÁ TODO ENROLADO. NÃO TENHO TIDO TEMPO DE ARRUMÁ-LO. FICO FELIZ QUE TENHA GOSTADO DO CONTO, MAS QUAL? COLOQUEI TODOS JUNTOS. SOU BURRINHA NISSO, MAS UM DIA APRENDO. BEIJOS

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